Luís Souta - Bichos à Solta. 25 postais escritos por um pai à sua filha, lidos e apreciados por um amigo

Luciano Pereira

Resumo


Ao redigir este texto, não pretendo acrescentar qualquer novidade aos estudos realizados na área da fabulística, nem da epistolografia, nem tão pouco juntar mais uma peça ao conjunto de obras de arte existentes sobre os temas retratados. Bichos à solta é um conjunto de textos que se inscrevem na longa e prestigiada tradição epistolar. Não nos iludamos com as aparências e com os jogos ligeiros e graciosos que, em certa medida, para além da expressão de uma relação autêntica e apaixonada, também não deixam de se afirmar como estratégias discursivas e poéticas de um autor que sabe conciliar a sua sólida formação clássica com a sua contemporânea e comovente sensibilidade. No coração de um título, tão solto e aparentemente ingénuo, aninham-se vinte e cinco cartas profundamente pedagógicas. As cartas, tais como as de Séneca, o filósofo estóico cordovês que o Padre Manuel Antunes apelidou de “filósofo da condição humana”, não têm como destinatário uma figura retórica, um artifício meramente literário, mas sim um familiar intensamente próximo, que permite a troca de informações íntimas, quase sempre de índole filosófica, por vezes superficiais. A comunicação emotiva basta-se a si própria, tal como se satisfaz a comunicação poética. As cartas pontuam uma demanda muito subtil por uma espécie de Santo Graal donde irradiam as complexas e tão luminosas relações entre o amor paterno e as correspondências filiais. Nessa peregrinação opera-se um verdadeiro processo de iniciação que pretende transmitir os valores mais nobres da existência humana, consubstanciados nas mais sagradas regras de respeito pelo outro, pela natureza e por todas as suas criaturas. Conhecemos semelhante processo desde a sétima carta de Platão e dos vários volumes da correspondência de Cícero.
Cada postal ostenta um título, que nos permite seguir o crescimento da destinatária, assim como as metamorfoses e o processo de maturação do emissor. O local de redação desenha um percurso mítico numa secreta geografia de aventuras e emoções que o emissor partilha com a filha, enquanto confidente e única companheira que, sem o acompanhar, não deixa de estar sempre presente, pela força do muito amar. As datas da redação de cada missiva são frequentemente sempre comemorativas, comemora-se a escrita, a vida, a liberdade, o ambiente, as artes e a paz. As que o mencionam relacionam-se sobretudo com as crianças, com a família, com a natureza e com os animais. É difícil não se render a tanta sedução, a um jogo tão envolvente de toca e foge. Jogar às escondidas com o passado e com o destino, com o tu e com o eu, com a água e com o fogo faz parte da arte das metamorfoses infantis, de golfinho a gato assanhado, de cão vadio a cavalo desenfreado.

Texto Completo:

PDF




MEDI@ÇÕES - Revista Online da ESE/IPS
ISSN: 1647-3078

http://mediacoes.ese.ips.pt
mediacoes@ese.ips.pt